05/05/2004 15:25
Era uma noite dos anos mais antigos do passado. Em algum canto havia uma mulher. E o resto de uma canção. E um cheiro de jardim coberto pelo orvalho. O menino estava na janela e olhava a noite. O tempo, agora, era uma canção estendida no meio da noite mais antiga do passado...
...o menino continuava na janela vendo passar o mascarado do carnaval, o pierrô com o bandolim prateado, o rosto banhado de luar. De repente, tudo foi ficando estranho, o menino perdeu o apoio da janela. A lenta procissão de fantasmas ordenados como um carrossel tranformou-se num desfile de escombros...
... o menino, então, se habituou a olhar para dentro de si mesmo, e foi dentro de si mesmo que viu a moça que lhe pedia o verso do poema mal sabido: “ ... E assim ficamos no silêncio pouco a medo, naquela hora em que o subúrbio tem segredo e descem coisas – certas coisas – do luar.”
... Num truque que aprendeu sozinho, ele saía de si mesmo e se misturava aos fantasmas, confundindo-se com eles, o pierrô com o bandolim prateado, o rosto branco, branco de luar. E tudo pareceu voltar de repente: a janela, o jardim coberto de orvalho, a noite solitária, noite contra a noite, noite dos anos mais antigos do passado.

Os anos mais antigos do passado – Carlos Heitor Cony


enviada por cris






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