04/03/2004 20:07

Sinceramente não sei porque continuo vindo aqui. Você é tão fútil, tão egocêntrico, que não entendo porque continuo te visitando. Você não atende ao meu chamado, você me ignora, e eu continuo vindo aqui pra te “ver”, pra saber como você está, como anda sua vida, o que tem feito de bom, se está triste ou alegre...
Como você pode me ignorar desse jeito, como?!? Eu passo horas, dias imaginando o momento em que você chegará e nada. Você não chega, você não vem até mim, só eu vou ao seu encontro. Ando cansada desse trajeto de mão única. Estou cansada de esperar você aparecer, ligar, dar notícias, dizer como andam as coisas por aí. Estou cansada de esperar, não sei esperar, não gosto de esperar, quero tudo na hora, quero tudo pra agora, pra ontem, odeio quando me deixam de molho.
Aqui no seu antigo apartamento, que agora está quase vazio, é como se ainda estivesse cheio de você, em cada detalhe dos móveis escolhidos que ainda permancem, nos livros e cds que ficaram, nos seus rabiscos, em tudo isso que eu vasculho para saber onde está a parte que fala sobre mim, sobre nós dois, a parte que indica que eu também estive aqui.
Eu estive aqui, eu continuo vindo aqui. Tudo isso aqui registrado, fotografado, decorado pelas lentes da minha memória. Tudo aqui, tudo sobre você. Conhecer seu passado, o que te fez ficar feliz ou triste, o que te fez rir ou chorar, as músicas que você ouviu, os livros que leu, a declaração que não conseguiu fazer, o beijo que não recebeu, os sonhos que não se concretizaram, o amor que não quis você, as desilusões, as frustações, seus medos, angústias, raivas, tudo que você perdeu, tudo que ganhou, cada vitória, cada derrota, registrada aqui, tudo aqui, tudo exalando você. Tudo aqui repleto de você.
Odeio esperar por notícias suas, notícias que não chegam, e eu fico aqui, nessa agonia, tentando fingir pra mim mesma que não vejo que estou sendo ignorada. Não sei porque continuo te querendo.
Se algum dia chegar e encontrar você aqui, parado, me olhando, me esperando talvez não saiba o que dizer, ou talvez eu diga que fiquei furiosa por você ter-me feito esperar todo esse tempo, ou simplesmente não diga nada e me jogue em cima de você, o que eu acredito que seria o mais provável.
Talvez seja por acreditar nesse retorno é que eu continuo vindo aqui, lembrando, lendo e relendo coisas antigas, seu passado, nosso passado, coisas ditas do fundo do coração, palavras sussurradas no ouvido num final de tarde, palavras escolhidas a dedo, palavras ditas meio sem querer, meio sem intenção. Suas lágrimas, seus risos, suas loucuras, seu jeito politicamente correto de ser, seu gosto excessivo pelo seu trabalho, suas manias loucas, sua vida, seus amigos, seus enganos, seus prazeres, enfim, você.
Você aqui, alí, em todo lugar, em toda parte, em cada canto, em cada cômodo, em cada toque, em cada música, em cada frase, em cada verso, você, você, em tudo e completamente você!
Sei porque venho aqui, porque ninguém conseguiu me fazer rir como você, ninguém conseguiu personificar tudo aquilo que eu imaginava como você, ninguém me choca e me realiza como você.
Caí pra trás quando você apareceu com essa sua história, já que ela era tudo o que eu sonhava. Por isso continuo te visitando, invadindo teus cômodos, teus armários, tua vida, investigando seus vestígios, buscando em cada um deles algo que indique ser de nós dois.
Sei porque continuo vindo aqui, para que você saiba que mesmo longe te quero bem, mesmo longe me preocupo com você, com sua vida, e que mesmo você não estando mais presente eu estarei sempre aqui.

enviada por cris






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Cristina Costa
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